domingo, 13 de março de 2011

E lá estava ele...

E lá estava ele, roupa social, o blazer jogado sobre o encosto da cadeira, a gravata frouxa com o primeiro botão solto permitindo-lhe respirar tranqüilo depois de uma longa semana de trabalho, não é cedo nem tarde, são só 23:25 de uma sexta-feira.

É quando a porta se abre deixando entrar a luz da rua entrar que começa a tocar Since I’ve Been Loving You – Led Zeppelin e essa é uma daquelas musicas que quando alguém abre a porta no exato momento que ela começa tocar, obrigatoriamente a pessoa caminhará em câmera lenta para todos que a olharem.

Dessa vez não foi diferente, ela de pele clara, alta, cabelos escuros, um olhar enigmático e um sorriso de Mona Lisa, ela caminhou em câmera lenta sentando-se em uma mesa de frente a dele, parecia ter isso ali apenas pela música, mas pediu uma cerveja, pois essa deveria ser a sua única companheira da noite.

Ahhh mas nós já sabemos, depois de muitas cervejas, vodkas e whiskys de que nunca uma noite de sexta a bebida é a melhor companheira quando se está sozinho(a) em um bar que pode tocar os maiores clássicos do rock, bem talvez você não saiba disso, mas o fato é que ele sabia e tinha experiência nisso então pegando seu blazer e seu copo caminhou até a mesa dela e falou exatamente sobre aquilo que sabia:

- Desculpa, mas percebi que assim como eu você está sozinha, e eu bem sei que ficar aqui bebendo sozinho não é uma das coisas mais emocionantes pra se fazer numa sexta a noite, então posso me sentar aqui e beber com você enquanto falamos só sobre musica e nada mais.

É claro que ela não queria companhia, já estava acompanhada de suas angustias, de seus problemas e sua bebida, então a fim de entrar de cabeça nessa espiral auto-destrutiva ela sorriu:
- Claro tudo bem, vai ser bom ter alguém pra conversar, mas não entendo nada de música só gosto de ouvir mesmo.

- Sem problema assim não preciso fingir que sei muito também – sorrio ao se sentar mas o sorriso que recebeu de volta não foi convincente, falaram seus nomes, com o que trabalhavam ele disse sua idade mas não se arriscou a perguntar a dela mas como narrador posso te afirmar que não passava dos 30 o que a fazia um ano mais velha que ele, conversaram um pouco sobre de como o bar era bom, da cerveja gelada, viagens e das noites de sexta e como ele também não entendia nada de música não tocaram nesse assunto, mas claro que ele não podia deixar de perguntar aquilo que todo homem quer saber ao ver uma mulher entrar em suas vidas em câmera lenta – e depois que voltou pra cá você começou a namorar alguém ou está solteira?

E ao som de Death is Certain – Iggy Pop o sorriso desapareceu de seus lábios para que o copo os pudessem tocar, tomou um belo gole e disse olhando em seus olhos – Ao fim dessa garrafa podemos brindar a próxima à minha terceira hora como solteira em 4 anos – sorrindo de volta fazendo um sinal para o garçom trazer mais uma cerveja.

- Temos algo pra comemorar então, não sei como você está te sentindo e por mais que isso pareça uma cantada barata o seu primeiro brinde como solteira não vai ser em sua homenagem e sim a todos os homens solteiros que desde 3 horas atrás voltaram a ter uma chance com você! – e mesmo antes que chegasse a segunda garrafa ele ergueu seu copo fazendo o brinde e tomando em um só gole como ela o imitou em seguida.

Ela não acostumada a beber logo começou a se sentir mais solta, a sinceridade dele em seus casos a fazia rir e nós as vezes subestimamos a importância de uma boa risada, mas o que realmente a impressionou foi a forma como voltou a se sentir ao saber que tinha alguém interessada nela e que mesmo que só para uma conversa de bar se importava com ela. Esses sentimentos a fizeram pensar como as vezes deixamos nossos relacionamentos cair numa rotina que nos esquecemos que o mais importante é nos sentirmos bem. E com os dois se sentindo bem, a noite continuou, e as garrafas se acumularam sobre a mesa, algumas eram de água pois começaram a se preocupar em não ficar mais bêbado que o outro e assim nenhum ficou realmente bêbado.

Give Me Some Love – James Blunt parecia ser o fundo musical perfeito para esse momento da noite e exatamente por isso começou a tocar para acompanhar a troca de olhares, as mãos se tocando acidentalmente seguidos por sorrisos não tão acidentais, era evidente para ambos a atração entre eles, ela até cogitou em chama-lo para tomar um café, mas seria cedo demais pra isso, não que exista hora para um café, mas um café as 2:10 nunca é só um café e ele também queria tira-la dali mas seu apartamento não era uma opção, não depois de dar uma semana de folga para Dona Lourdes, a faxineira.

E com essa vontade preenchendo o dois o bar antes visto como um ótimo lugar começará a ficar abafado, pequeno demais para os dois e coube a ele fazer o convite – Olha está ficando tarde o que você acha de... – ele nem terminou sua frase mas ela já preparou o não, é claro que ela não iria pra casa dele assim logo de cara, quem era ele pra pensar que só porque ela estava carente ela seria fácil, e nesse momento ela teve certeza que todos os homens eram iguais e nenhum realmente se preocupava com ela e enquanto ela pensava ele continuou - ... irmos caminhar um pouco, esticar as pernas? Tem um parque bem tranqüilo logo aqui na frente. – Um olhar de surpresa preencheu os olhos dela que murmurou – Eu acho uma boa idéia. – alias fazia tempo que ela não caminhava ao ar livre a luz da lua e das estrelas tendo alguém pra conversar.

Então pediram a conta, ela quis pagar metade, mas ele a convenceu de deixar ele pagar desde que ela pagasse um café antes de irem embora, ela aceitou mesmo achando que nunca é só um café, ao saírem o clima estava ameno, o tempo seco do inverno deixou o céu claro, muitas estrelas a lua quase como um sorriso, clara em um arco fino. Ele contou sobre as vezes que acampou e ela sobre as noites que deitara na grama só contando as estrelas, nesse momento seus olhares se cruzaram, não havia mais música ao fundo, só o som das árvores balançando e a respiração dos dois. Ao ver a luz da lua cruzando as folhas das árvores em seu rosto ele fez a única coisa certa a fazer, se aproximou passando sua mão pelo rosto dela, sua pele clara e macia, escorregou seus dedos por entre os cabelos até a nuca e sem que ela resistisse ele a puxou segurando também sua cintura e deram então seu primeiro beijo.

Ela não teve como evitar, sentiu uma certa paixão juvenil e comparou o beijo com do seu ex, e decidiu que este estava melhor, uma brisa fria envolvia seus corpos mas o atrito de seus lábios quentes os aqueciam enquanto suas línguas se encontravam e deslizavam uma sobre a outra, o beijo não fora tão longo mas foi o suficiente para deixa-los levemente sem ar e envolvidos um no braço do outro, ele a segurando pela nuca e pela cintura e ela o abraçando no pescoço e acariciando ou até mesmo quase arranhando suas costas. Definitivamente eles com um olhar concordaram que precisavam de um café e talvez um fundo musical mais agitado.

Na manhã do dia seguinte ele sabia que a Dona Lourdes teria muito mais trabalho pra fazer na segunda, ela achou uma graça a forma como ele sempre tirava o cabelo da frente dos olhos dela passando a mão firme pelo rosto antes de beija-la, e assim ela o ajudou arrumar a casa e a Dona Lourdes perdeu o emprego 6 meses depois quando decidiram morar juntos e ela o obrigava a manter as coisas em ordem com o pretexto de que não queria tropeçar em nada quando fossem tomar um café pela casa.

E foi a partir daí que se casaram, tiveram um casal de filhos e que ele decidiu comprar um sofá mais confortável depois da quinta briga séria, mas uma vez por mês ainda vão naquele mesmo bar de rock e mesmo com altos e baixos um sempre se preocupa em fazer algo de bom para melhorar o dia do outro.

Um comentário:

  1. Matheus, ficou excelente o conto! Muitol legal, as vezes precisamos mesmo desses cafés tarde da noite ou um bar com boa musica para voltar a sermos nós mesmos, tal qual as personagens fizeram! Abraço!

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